Em Mortes por Desespero e o Futuro do Capitalismo (Deaths of Despair and the Future of Capitalism), Anne Case e Angus Deaton investigam um fenômeno que surpreendeu economistas e demógrafos: a reversão da tendência histórica de aumento da expectativa de vida nos Estados Unidos. A partir dos anos 1990, e de forma mais intensa na década seguinte, homens e mulheres brancos de meia-idade, com baixa escolaridade, passaram a morrer em taxas crescentes não por doenças infecciosas ou envelhecimento, mas por suicídios, overdoses de drogas e álcool e doenças relacionadas ao consumo excessivo de bebidas alcoólicas. Os autores denominam esse conjunto de causas de “mortes por desespero”.
A tese central do livro é que essas mortes não representam um problema exclusivamente de saúde pública, mas o sintoma mais visível de uma profunda deterioração econômica e social. Segundo Case e Deaton, milhões de trabalhadores americanos perderam, ao longo das últimas décadas, empregos estáveis, perspectivas de ascensão social e o sentimento de pertencimento que tradicionalmente era proporcionado pelo trabalho. O resultado foi o aumento do isolamento, da instabilidade familiar, da dependência química e de doenças mentais.
Os autores atribuem esse processo, em grande medida, às transformações ocorridas no mercado de trabalho desde os anos 1970. A globalização, a automação e a redução do poder de barganha dos sindicatos comprimiram os salários dos trabalhadores menos qualificados e ampliaram a desigualdade de renda. Ao mesmo tempo, empregos industriais relativamente bem remunerados foram substituídos por ocupações menos estáveis e com menor proteção social. Embora a economia americana tenha continuado crescendo, os ganhos foram apropriados de maneira desproporcional pelos trabalhadores mais qualificados e pelos detentores de capital.
Case e Deaton enfatizam que o diploma universitário tornou-se um divisor de águas. Enquanto indivíduos com ensino superior continuaram apresentando melhora na renda, na saúde e na expectativa de vida, aqueles sem formação universitária passaram a enfrentar salários estagnados, menor estabilidade profissional e piores indicadores de saúde física e mental. Essa divisão educacional tornou-se um dos principais determinantes das desigualdades contemporâneas nos Estados Unidos.
O sistema de saúde americano ocupa posição de destaque na análise. Para os autores, trata-se de um modelo extremamente caro, pouco eficiente e que beneficia diversos grupos de interesse — hospitais, seguradoras, indústria farmacêutica e profissionais da saúde — sem oferecer cobertura adequada para grande parte da população. A crise dos opioides ilustra esse problema: medicamentos altamente viciantes foram amplamente prescritos durante anos, contribuindo para centenas de milhares de mortes por overdose e agravando o quadro de desespero social.
Apesar das críticas contundentes, os autores deixam claro que não defendem o abandono do capitalismo. Seu argumento é que o capitalismo americano passou a funcionar de maneira excessivamente concentradora, reduzindo oportunidades de mobilidade social e enfraquecendo instituições fundamentais, como o trabalho, a família e as comunidades locais. Em vez de rejeitar a economia de mercado, propõem reformas que fortaleçam a concorrência, ampliem o acesso à educação, reduzam privilégios corporativos e promovam melhores condições para trabalhadores de menor qualificação.
A principal contribuição de Mortes por Desespero é mostrar que indicadores tradicionais, como crescimento do PIB ou valorização do mercado acionário, podem ocultar profundas fragilidades sociais. Uma economia pode se expandir enquanto parte significativa da população perde renda, saúde e esperança. Para Case e Deaton, compreender o capitalismo contemporâneo exige olhar além das estatísticas agregadas e reconhecer que o verdadeiro desenvolvimento depende da capacidade de gerar oportunidades, dignidade e perspectivas de futuro para a maioria da população. Nesse sentido, as “mortes por desespero” representam não apenas uma tragédia humana, mas também um alerta sobre os custos sociais de um crescimento econômico cujos benefícios deixam de alcançar parcelas importantes da sociedade.

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