Em janeiro de 2024 eu fiz uma live para falar do livro dos economistas Andrew Lo e Stephen Foerster, “Em busca da carteira perfeita”, que no Brasil foi publicado pela Alta Books como “Em busca do portfólio perfeito”. O livro resulta de anos de entrevistas que os autores fizeram com os grandes nomes das finanças em torno da seguinte questão: qual é a carteira que você considera ideal? Os entrevistados responderam com base em suas pesquisas e experiências em finanças e há vídeos na Internet dessas entrevistas. São fantásticas! Os entrevistados: Harry Markowitz (Nobel), Bill Sharpe (Nobel), Gene Fama (Nobel), Jack Bogle (fundador da Vanguard Investments), Myron Scholes (Nobel), Bob Merton (Nobel), Marty Leibowitz (Morgan Stanley), Bob Schiller (Nobel), Charley Ellis (Greenwich Associates) e Jeremy Siegel (Wharton School). Cada um deles tem um método para definir quais os ativos que farão parte de sua carteira, por quanto tempo e com qual expectativa de retorno. Foi em torno deles que se construiu a Teoria das Finanças e boa parte da prática das grandes empresas de gestão de recursos do mundo. Considero extremamente indicada a leitura do livro ou, pelo menos, que você assista ao vídeo da live que fiz.
Ao final do livro ele faz a sua própria sugestão que, na minha visão, incorpora boa parte do que os grandes mestres sugeriram. Para ele, não existe uma carteira universalmente ótima, válida para todas as pessoas e para todos os momentos. O portfólio adequado depende do investidor — idade, patrimônio, renda, necessidades futuras, tolerância a perdas, horizonte de investimento — e, crucialmente, essas características mudam ao longo da vida.
Isso está diretamente ligado à sua Adaptive Markets Hypothesis. Lo contesta a ideia de que os mercados possam ser compreendidos apenas como sistemas perfeitamente racionais e eficientes. Investidores são seres humanos, sujeitos a medo, euforia, aprendizado, adaptação e mudança de comportamento. Da mesma maneira, o ambiente econômico e financeiro também muda.
Então, como seria o “portfólio perfeito” de Andrew Lo?
Ele teria algumas características fundamentais:
- Diversificação, mas não simplesmente “ter muitos ativos”. O importante é possuir fontes diferentes de risco e retorno.
- Adequação ao investidor: a carteira precisa refletir objetivos, horizonte, patrimônio, renda e capacidade de suportar perdas.
- Adaptação ao longo do tempo: uma carteira ótima hoje pode deixar de ser ótima amanhã.
- Disciplina, para evitar que medo e euforia destruam uma estratégia bem construída.
- Atenção ao risco, e não apenas à maximização do retorno esperado.
- Simplicidade suficiente para ser seguida. Uma estratégia teoricamente ótima que o investidor abandona durante uma crise não é ótima na prática.
Há ainda uma distinção importante: capacidade de assumir risco não é a mesma coisa que disposição para assumir risco. Uma pessoa pode financeiramente suportar uma queda de 40%, mas psicologicamente ser incapaz de permanecer investida. O portfólio precisa funcionar para o ser humano que efetivamente o possui.
O portfólio perfeito não é uma determinada combinação de ações, títulos e outros ativos. É aquele que permite ao investidor alcançar seus objetivos financeiros e, ao mesmo tempo, sobreviver às mudanças dos mercados e às próprias mudanças ao longo da vida.
E há uma consequência muito importante para aposentadoria: o “portfólio perfeito” deixa de ser simplesmente aquele com maior retorno esperado e passa a ser aquele que maximiza a probabilidade de financiar os objetivos do investidor ao longo da vida, levando em consideração risco, horizonte, comportamento e mudanças de circunstâncias.
Aliás, essa conclusão conversa bastante com aquela análise que fizemos da carteira 70% PETR4 / 30% CDI com aportes mensais: olhar apenas o retorno acumulado conta só metade da história. Para avaliar se aquela carteira seria realmente “boa”, no sentido de Lo, precisaríamos olhar também para volatilidade, drawdowns e, sobretudo, o que aconteceria com o patrimônio em diferentes datas de aposentadoria. Aí a discussão fica bem mais interessante.

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